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Mad Max

A loucura individual  recebe muito menor compreensão do que a  colectiva: Ah...mas o meu amigo...está  a escapar-lhe uma quantidade de  factores políticos, sociais, culturais..enfim... 

 Existem alguns topoi escorregadios, como o caso das seitas, apresentados como de loucura  colectiva. Pois, mas vai-se  a ver e existe sempre  um chefe maléfico, hipnotizador  ou adivinhador da chave do euromilhões. E depois... aqueles seguidores...óbvio que tinham uma  aduela a menos... 


O foro de Melgaço previa a multa de  de trezentos soldos  para o vizinho de outra  comunidade que prendesse  um dos seus, mas restringia  a cinco soldos  a compensação a pagar  pelo homem de Melgaço que prendesse alguém de outra terra. Mattoso recupera o documento ( num livro fabuloso, mas isso não é para agora) do século XII. Se aplicássemos uma  grelha individual diríamos que os de Melgaço eram dados à vesânia, não diríamos?


A restrição da loucura  ao indivíduo, isentando a comunidade de igual pecadilho, parece contrariar a fábula da psicologia de massas. A história do Freitas, cidadão exemplar  toda a semana que  vai aos domingos atirar o sapato a um fiscal de linha que não conhece de parte nenhuma porque a claque o influenciou. Aqui já é de bom tom atribuir ao colectivo alguma pancada na mola. Mal.  
O Freitas talvez seja o Freitas precisamente naquele instante. Toda a semana atura  a sogra, o trânsito, o patrão, o ranho dos garotos.  Naquela hora e meia, anónimo  no meio do maralhal, pode finalmente ser o que é. No fundo sabemos isto muito bem. Os ingleses acabaram com o holliganismo proibindo indivíduos específicos de entrar nos estádios. A loucura colectiva  perambula por outros matos. 


Imaginemos a reunião  de Wannsee - na qual as câmaras de gás   mostraram  ser uma solução melhor do que a deportação dos judeus para  Madágascar - ou um dia no Perm 36 ( o  ITK-6 camp), uma estância dos Urais  à beira da Sibéria. Megatoneladas de análise política, justificações de todo o género, indignações justíssimas. Agora...diagnósticos psiquiátricos? Nem pensar.

( depois lá irei a algumas causas deste duplo padrão)

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