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O PSD, Bourdieu e o bolor

Foi no final do século passado ( Fevereiro de 1999)  que Bourdieu apresentou em Lyon as ideias que viriam  a constar  em Propos sur le champ politique ( PUL, 2000) .  Se o seu conceito de campo politico já era conhecido, nesse trabalho foi mais longe e antecipou, com notável presciência, muito do que observamos hoje. O campo político sofre de uma crise de representação  : a delegação política   já não é suficiente para compreender as relações entre  percepção do mundo social e a luta política. Bourdieu anunciava o aparecimento de relações  diferentes das que os velhos actores do campo politico cultivaram:  a colusão permamente ( alinças e conspirações)  visando a manutenção  da autoridade política e a delegação  política  montada para perpetuar essa colusão.
O que assistimos no PSD, hoje, é uma aula prática da previsão ( entretanto confirmada)  de  Bourdieu.  Incapaz de se ligar ao mundo social,  a actual direcção enredou-se nos velhos esquemas, reproduzindo a dominação de maneira sis…
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Morte, tempo e memória: 5 ( apêndice ao dicionário da derrota)

Alguns leitores disto  estão, ou estiveram, em terapia comigo e reconhecerão a coisa: arquivar. Utilizo este termo quando a pessoa necessita de aprender a viver com uma  má memória ( das más mesmo).
No número anterior falei da teoria do Ferenczi: deprimos porque recordamos a repressão de impulsos associados a determinado acontecimento. Não chega: por vezes é mesmo a mágoa e a dor, simples. Para conseguir arquivar precisamos de conceder à má memória  um lugar respeitável. Pode ser   uma morte, uma ofensa, um amor roubado, a coisa tem é de ter direito a coexistir com o resto da maralha. Ora, isto briga com a tendência natural de querer esquecer...
Arquivar significa então reconhecer a impotência diante do passado. Arrumamos as más memórias numa  prateleira poeirenta porque elas fazem parte da mobília. Significa, num campo mais vasto, aceitar que  a vida é um caminho para  a derrota final e inexorável. E é um caminho radioso porque há várias metas-volantes  deliciosas que só podemos apr…

Dicionário da derrota

B

Balanço ( s.m.)

Deixemos o substantivo e conjuguemos o verbo: eu balanço. Com o Mário de Sá Carneiro:

Na minha alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira de um poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...



Poucos textos resumem melhor a derrota. Obrigado, Mário.


1ª pess. sing. pres. ind. de
"balanço", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/balan%C3%A7o [consultado em 14-01-2019]. 1ª pess. sing. pres. ind. de balançar
"balanço", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/balan%C3%A7o [consu…

Um erro monumental

Esta direcção do partido devia estar como Leonor posta em sossego, praticando a  sua interessantíssima acção política de acção de graças  ao PS, eleita com a segunda pior  votação desde L.F. Meneses e entretida a caçar bruxas internas. Ia a eleições e depois o povo avaliava. Tudo o que sair desta linha tresanda a desastre. Um congresso extraordinário ou reconfirma Rio ou fragiliza um novo boss que passará a ter assestada a mira dos derrotados. A primeira possibilidade desculpabiliza a actual direcção  dos resultados eleitorais, a segunda oferece uma nova direcção sem tempo nem espaço para se estruturar.
Dizem que o partido está em risco, que se deve agir agora. Pois deve. Trabalhando politicamente, pensando, escrevendo, falando, reunindo. Não é proibido e é até recomendável.  Chama-se organizar uma alternativa. Por falar em alternativas, outra seria deixar esta pele velha de senadores, barões e caciques municipais ( que trocam de partido como o Futre trocava de clube) e montar um es…

Morte, tempo e memória ( 4)

As memórias são sempre más: se são boas, são más porque são de um tempo  irrepetível; se são más, atormentam-nos. No outro dia estava a pensar naqueles dois golos do Nuno Gomes nas Antas  ( era Koeman): caramba, são boas? Não, não são. Fazem amargar o presente.
Um psicanalista chanfrado, Ferenczi, num texto  com um título  ainda mais chanfrado ( The psychic effect of sunbath, 1914 )  discorre sobre a neurose de domingo . A ideia é que todas as memórias depressivas   ligadas a uma data ( dia, hora, ano)  específica  são um gatilho que faz regressar um estado de impulsos reprimidos ( uma constante psicanalítica). Ou seja, deprimimos porque nos lembramos da repressão.
É possivel, pese a chanfradice, que o homem tenha uma certa razão. Quando recordamos certos episódios, recordamos também a impotência: apeteceu-me sei lá quê, só queria desaparecer etc, tive vontade de lhe  ir aos fagotes  etc. É curioso que talvez aconteça uma ligeira  variação com as boas memórias: ficamos deprimidos por…

Morte, tempo e memória : 3 ( apêndice ao Dicionário da derrota)

O único animal que tem a percepção do tempo é também o único que sabe que vai morrer. Óptimo pretexto para falarmos de aniversários.
Demoro-me muito a escutar os velhos que me falam  dos seus dias de anos. A regra é a tristeza. Sabem que falta pouco. De vez em quando aparecem umas ( sempre mulheres)  que mostram alegria e satisfação. Essas ouço-as imóvel como um perdigueiro a apontar perdiz. Dizem-me que adoram viver e, apesar da idade, pior seria ir fazê-los ( os anos) à cova. E celebram.
Mais sumarentos são os aniversários do plantel  da meia-idade. Lembro-me de uma vez  estar com o  Carlos Amaral Dias à conversa no dia seguinte ao seu sexagésimo aniversário. Não  ferindo a privacidade, digamos que ele estava desanimado. Recuando um bocadinho: e  os cinquentões ( a minha categoria) que juntam amigos  para uma grande farra? Bem, pelo menos nesse dia, com o álcool, não tomam o antidepressivo.
Se gostas de viver, gostas de fazer anos. Não pelo aniversário em si, mas pela lógica da sob…

Dicionário da derrota

B
Bailar ( v.t. e v.i.)
O baile que a vida nos dá é por demais sabido, não adianta perorar. Mais sumarento é saber como se baila. Por exemplo: aprende-se ou nascemos com o talento? Ballizein, no grego ( que deu o latino ballare) siginificava lançar, atirar. Aliás,  a origem é comum a balística, a ciência prática de atirar coisas a pessoas que estão atrás de barbacãs e muralhas e assim. Então bailar é atirarmo-nos? Para a frente? Prefiro para trás. Recuar, imaginar que o inimigo não nos topa, ficar na cisterna do castelo  com uma côdea de pão, quedinho e mudo. Isto é um dicionário da derrota, não é?