Skip to main content

Da generosidade

Gasset brinca  ( El Espectador, 1925) com o sentido original do termo ( testemunha, tradução  literal do martyros grego) quando uma ninfeta o interpela. Ela quer saber como Gasset vive sem apanhar sol:
- Es qué yo no vivo, señora.
- Pues qué hace usted?
- Asisto a la vida de los demás.
É por vezes a sensação que o psicoterapeuta  tem: assistir  à vida dos outros. O objectivo, infantil talvez, reconheço, é extrair os factores comuns - o  que existe em todas as relações, em todos os cenários. A tarefa lá  vai, aos tortolos, hesitando entre o desperdício e a solidão. Recentemente tenho notado um ponto comum aos que menos desperdiçam e menos se sentem sós: a generosidade.

Estarei a ficar velho e piegas? Velho,  de certeza, piegas, não: continuo  o mesmo bode egoísta. A descentralização do ego faz de facto muito bem. Como é que conseguem? Talvez porque, no fim de contas, os generosos recebam uma recompensa ambrosiana: dependem menos dos outros. Desperdiçam, portanto, menos e  suportam melhor a solidão.

Comments

Popular posts from this blog

Fake news total: Kennedy e o Vietname

Mc Namara, um burocrata, ia a Saigão ver o que os generais queriam. Kennedy, que, é verdade, anos antes tinha escrito coisas muito acertadas sobre o papel dos EUA na Indochina - na prática nenhum - deixou-se ir. E deixou-se ir quando teve uma boa oportunidade de ir embora. O regime de Diem era só um grau abaixo do de Hanói em crueldade, o que era  pouco, e vários graus acima em corrupção, o que era muito.  O presidente  americano  sustentou-o. Depois engendrou, enfadado, pouco antes de morrer ( Novembro de 1963), o golpe que  Cabot Lodge  levou a cabo contra Diem e o irmão.  Acabaram mortos num blindado que os deveria levar a uma safe-house.  O medo de perder, internamente,  a face no confronto com os comunistas foi mais forte do que as suas anteriores convicções.   Jonhson herda o berbicacho  para deleite dos novos homens fortes de Hanói, Le Duan e Le Duc Tho, uma vez que  Ho Chi Min já estava na pré-reforma: agora era...

Farsas

Os três filmes sobre a luta contra  o comunismo na Polónia são polacos. Ou seja, o assunto, um dos mais importantes da vida europeia do final do século  XX, nunca interessou às grandes companhias  de Hollywood nem aos produtores, intelectuais e artistas franceses ou ingleses.    Há coerência. Também são raríssimas as incursões da  Europa ilustrada e unida contra o populismo, o fascismo e as fakes news, no quotidiano  de metade dos (actuais) europeus  sob a pata das polícias secretas, da interdição de manifestações, da proibição de livros e do encarceramento por delito de opinião. É evidente que eleger o assunto como tema de atenção significaria mostar como funcionou, na prática, o comunismo. Nos detalhes da repressão e da pobreza e não no palavreado do progresso e  da liberdade. Também havia episódios burlescos. Na Polónia as pessoas festejam o aniversário e o dia  do seu santo.  Quando era a vez de Walesa, uma especta...