Skip to main content

Morte, tempo e memória ( 4)

As memórias são sempre más: se são boas, são más porque são de um tempo  irrepetível; se são más, atormentam-nos.
No outro dia estava a pensar naqueles dois golos do Nuno Gomes nas Antas  ( era Koeman): caramba, são boas? Não, não são. Fazem amargar o presente.

Um psicanalista chanfrado, Ferenczi, num texto  com um título  ainda mais chanfrado ( The psychic effect of sunbath, 1914 )  discorre sobre a neurose de domingo . A ideia é que todas as memórias depressivas   ligadas a uma data ( dia, hora, ano)  específica  são um gatilho que faz regressar um estado de impulsos reprimidos ( uma constante psicanalítica). Ou seja, deprimimos porque nos lembramos da repressão.

É possivel, pese a chanfradice, que o homem tenha uma certa razão. Quando recordamos certos episódios, recordamos também a impotência: apeteceu-me sei lá quê, só queria desaparecer etc, tive vontade de lhe  ir aos fagotes  etc. É curioso que talvez aconteça uma ligeira  variação com as boas memórias: ficamos deprimidos porque somos impotentes para regressar  a esse tempo e repetir a experiência. Pior ainda se não a aproveitámos como devia ser: fica para outra altura...

Comments

Popular posts from this blog

Fake news total: Kennedy e o Vietname

Mc Namara, um burocrata, ia a Saigão ver o que os generais queriam. Kennedy, que, é verdade, anos antes tinha escrito coisas muito acertadas sobre o papel dos EUA na Indochina - na prática nenhum - deixou-se ir. E deixou-se ir quando teve uma boa oportunidade de ir embora. O regime de Diem era só um grau abaixo do de Hanói em crueldade, o que era  pouco, e vários graus acima em corrupção, o que era muito.  O presidente  americano  sustentou-o. Depois engendrou, enfadado, pouco antes de morrer ( Novembro de 1963), o golpe que  Cabot Lodge  levou a cabo contra Diem e o irmão.  Acabaram mortos num blindado que os deveria levar a uma safe-house.  O medo de perder, internamente,  a face no confronto com os comunistas foi mais forte do que as suas anteriores convicções.   Jonhson herda o berbicacho  para deleite dos novos homens fortes de Hanói, Le Duan e Le Duc Tho, uma vez que  Ho Chi Min já estava na pré-reforma: agora era...

O martírio de uma mulher

Amor louco: eu contigo e tu com outro, já diziam os antigos. Imaginemos  uma coisa parecida hoje. Suponhamos que uma herdeira  da cortiça ou dos hipermercados, de 48 anos,  desaparecia e era encontrada meses depois a viver com um segurança  vinte anos mais novo. Até aqui tudo igual. Mesmo no nosso tempo seria possivel o desejo de recato e privacidade, bastando desligar o telemóvel e não frequentar as redes sociais. A comoção na família endinheirada e o interesse mediático também não seria muito diferente. Outra conversa seria o estatuto de Maria Adelaide hoje: presença em todos os telejornais e capas de revistas, símbolo  da pureza do amor, emblema da nova condição feminina etc. A família endinheirada e famosa ficaria com o labéu de reaccionária-marialva e não lhe restaria mais do que deixar de prestar  declarações. A diferença  mais importante, no entanto, seria outra. À época, os pincipais especialistas - Sobral Cid, Egas Moniz, Júlio de Ma...